Sábado

O Conto da Massinha de Modelar

Eu me lembro de quando eu era criança, lembro das surras justas que pra mim eram completamente sem fundamento... Eu errava com os meu pais e mesmo assim ainda me achava no direito de questionar e transformá-los em 'monstros'... Tive uma infância muito feliz, descobri a minha profissão ainda nessa época quando eu me via em algum stúdio de Tv ou em algum jogo de futebol em que meu pai narrava, onde se apaixonar foi inevitável.
Os ensinamentos eram constantes, como sofre um pai e uma mãe para transformar seus filhos em gente, como eles se entregam, se doam, se esforçam para fazer com que o filho entenda o que é caráter...
Me recordo de vários momentos assim... 
Um dia... (Eu deveria ter uns 4 ou 5 anos) fui pega de surpresa pela minha inocência... Ia à escola todo dia, ás vezes eu confesso que fazia um drama pra não ir, mas não tinha conversa... Minha mãe nunca caiu no meu drama e acredito que ela nem lembre desse tal episódio... Cheguei, era cedo... cumprimentei todos, sorri, conversei com os meus amiguinhos de turma e brinquei muito, como toda criança daquela idade... Adorava massinhas de modelar, achava aquilo a melhor invenção do universo, era especial pra mim... Eu fazia o que vinha na cabeça, depois já não queria mais, desfazia e fazia uma outra coisa e assim eu ia levendo... Era encantador pra mim... Nesse dia, voltei pra casa com alguma coisa a mais... Era a massinha de modelar! Cheguei em casa, vi meu pai na Tv, falei com a minha babá, almocei (nunca dei mesmo trabalho pra comer rsrs), fiz meus deveres de escola e fui brincar, até aí tudo tranquilo... Minha mãe chegou e me surpreendeu... Eu bricava no chão com a massinha, ela se aproxima e pergunta: ''Ei filhaaa, quem te deu isso?'', eu com toda a pureza de uma criaturinha de 4 anos, respondo com um sorriso no rosto: ''Não mãe, eu trouxe da escola!''... Como assim? Eu não poderia ter feito isso, não poderia ter pego uma coisa que não era minha e simplesmente levar pra minha casa... Não era minha aquela massinha, eu não tinha esse direito.... Foi feio o que eu fiz, mas eu também não poderia imaginar com toda a minha 'experência' de uma 'mulher' de 4 anos que aquilo não podia ser feito, que não seria legal e que minha mãe tivesse tal reação.


Isso foi o que eu ouvi naquela tarde..
''Filha, não é seu, ninguém te deu... amanhã você vai chegar, pedir desculpas e devolver ok?''
''Mas mããããe... [Choro]''
''Filha, faz o que eu tô mandando... Você ta sendo desonesta, isso não é seu... A gente tem que querer o que é nosso, não o que é dos outros...Um dia você vai entender!''
No outro dia bem cedo ao chegar na escola eu fiz o que minha mãe havia dito, entreguei, pedi desculpas e me senti feliz por ter seguido aquele seu ensinamento.
Depois desse dia eu sempre levei isso comigo, sempre usei a honestidade como palavra-chave da minha vida e descobri com o passar dela, que desonestidade não é só pegar algo que não nos pertence, mas também enganar as pessoas, fingir, trair e não saber falar a verdade...
Ser honesto é ser digno da companhia de alguém, é ser digno de confiança, ser digno de ouvir aquele segredo mais 'desastroso'... É falar a verdade mesmo sabendo que você pode perder alguém pra sempre...
Eu só queria que a maioria das pessoas que eu convivi e que convivo, um dia tivessem levado uma simples massinha de modelar pra casa, que tivessem sentido o que eu senti naquela tarde e que tivessem aprendido o que eu aprendi pra vida toda... Ser honesta!!
Ser honesto não dói, nos deixa bem, nos deixa tranquilo, de mente limpa...
Honestidade não se compra e nem se conquista... Ela vem de berço!!

Bom Fds!!

O Tempo

...
Não conheço algo mais irritante do que dar um tempo, para quem pede e para quem recebe. O casal lembra um amontoado de papéis colados. Papéis presos. Tentar desdobrar uma carta molhada é difícil. Ela rasga nos vincos. Tentar sair de um passado sem arranhar é tão difícil quanto. Vai rasgar de qualquer jeito, porque envolve expectativa e uma boa dose de suspense. Os pratos vão quebrar, haverá choro, dor de cotovelo, ciúme, inveja, ódio. É natural explodir. Não é possível arrumar a gravata ou pintar o rosto quando se briga. Não se fica bonito, o rosto incha com ou sem lágrimas. Dar um tempo é se reprimir, supor que se sai e se entra em uma vida com indiferença, sem levar ou deixar algo. Dar um tempo é uma invenção fácil para não sofrer. Mas dar um tempo faz sofrer pois não se diz a verdade.
Dar um tempo é igual a praguejar "desapareça da minha frente". É despejar, escorraçar, dispensar. Não há delicadeza. Aspira ao cinismo. É um jeito educado de faltar com a educação. Dar um tempo não deveria existir porque não se deu a eternidade antes. Quando se dá um tempo é que não há mais tempo para dar, já se gastou o tempo com a possibilidade de um novo romance. Só se dá o tempo para avisar que o tempo acabou. E amor não é consulta, não é terapia, para se controlar o tempo. Quem conta beijos e olha o relógio insistentemente não estava vivo para dar tempo. Deveria dar distância, tempo não. Tempo se consome, se acaba, não é mercadoria, não é corpo. Tempo se esgota, como um pássaro lambe as asas e bebe o ar que sobrou de seu vôo. Qualquer um odeia eufemismo, compaixão, piedade tola. Odeia ser enganado com sinônimos e atenuantes. Odeia ser abafado, sonegado, traído por um termo. Que seja a mais dura palavra, nunca dar um tempo. Dar um tempo é uma ilusão que não será promovida a esperança. Dar um tempo é tirar o tempo. Dar um tempo é fingido. Melhor a clareza do que os modos. Dar um tempo é covardia, para quem não tem coragem de se despedir. Dar um tempo é um tchau que não teve a convicção de um adeus. Dar um tempo não significa nada e é justamente o nada que dói.
Resumir a relação a um ato mecânico dói. Todos dão um tempo e ninguém pretende ser igual a todos nessa hora. Espera-se algo que escape do lugar-comum. Uma frase honesta, autêntica, sublime, ainda que triste. Não se pode dar um tempo, não existe mais coincidência de tempos entre os dois. Dar um tempo é roubar o tempo que foi. Convencionou-se como forma de sair da relação limpo e de banho lavado, sem sinais de violência. Ora, não há maior violência do que dar o tempo. É mandar matar e acreditar que não se sujou as mãos. É compatível em maldade com "quero continuar sendo teu amigo". O que se adia não será cumprido depois.
(do livro "O amor esquece de começar")
Fabrício Carpinejar

Quarta-feira

Amigos Invisíveis

Os amigos não precisam estar ao lado para justificar a lealdade.
Mandar relatórios do que estão fazendo para mostrar preocupação.
Os amigos são para toda a vida, ainda que não estejam conosco a vida inteira.
Temos o costume de confundir amizade com onipresença e exigimos que as pessoas estejam sempre por perto, de plantão.
Amizade não é dependência, submissão.
Não se têm amigos para concordar na íntegra, mas para revisar os rascunhos e duvidar da letra.
É independência, é respeito, é pedir uma opinião que não seja igual, uma experiência diferente.
Se o amigo desaparece por semanas, imediatamente se conclui que ele ficou chateado por alguma coisa.
Diante de ausências mais longas e severas, cobramos telefonemas e visitas.
E já se está falando mal dele por falta de notícias.
Logo dele que nunca fez nada de errado!
O que é mais importante: a proximidade física ou afetiva?
A proximidade física nem sempre é afetiva.
Amigo pode ser um álibi ou cúmplice ou um bajulador ou um oportunista, ambicionando interesses que não o da simples troca e convívio.
Amigo mesmo demora a ser descoberto.
É a permanência de seus conselhos e apoio que dirão de sua perenidade.
Amigo mesmo modifica a nossa história, chega a nos combater pela verdade e discernimento, supera condicionamentos e conluios.
São capazes de brigar com a gente pelo nosso bem-estar.
Assim como há os amigos imaginários da infância, há os amigos invisíveis na maturidade.
Aqueles que não estão perto podem estar dentro.
Tenho amigos que nunca mais vi, que nunca mais recebi novidades e os valorizo com o frescor de um encontro recente.
Não vou mentir a eles ¿vamos nos ligar?¿ num esbarrão de rua.
Muito menos dar desculpas esfarrapadas ao distanciamento.
Eles me ajudaram e não necessitam atualizar o cadastro para que sejam lembrados.
Ou passar em casa todo o final de semana e me convidar para ser padrinho de casamento, dos filhos, dos netos, dos bisnetos.
Caso encontrá-los, haverá a empatia da primeira vez, a empatia da última vez, a empatia incessante de identificação.

Amigos me salvaram da fossa, amigos me salvaram das drogas, amigos me salvaram da inveja, amigos me salvaram da precipitação, amigos me salvaram das brigas, amigos me salvaram de mim.
Os amigos são próprios de fases: da rua, do Ensino Fundamental, do Ensino Médio, da faculdade, do futebol, da poesia, do emprego, da dança, dos cursos de inglês, da capoeira, da academia, do blog. Significativos em cada etapa de formação.
Não estão em nossa frente diariamente, mas estão em nossa personalidade, determinando, de modo imperceptível, as nossas atitudes.
Quantas juras foram feitas em bares a amigos, bêbados e trôpegos?
Amigo é o que fica depois da ressaca.
É glicose no sangue.
A serenidade.
Fabrício Carpinejar

Terça-feira

Só Resta

Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada. Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado, melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram.
Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição. Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue;outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés.
Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer.
Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho...o de mais nada fazer.

Sábado

Só o ''Eu te amo'', não é suficiente.

O cara diz que te ama, então tá. Ele te ama.

Sua mulher diz que te ama, então assunto encerrado.

Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas. Mas saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de milhas, um espaço enorme para a angústia instalar-se.

A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e verbalização, apesar de não sonharmos com outra coisa: se o cara beija, transa e diz que me ama, tenha a santa paciência, vou querer que ele faça pacto de sangue também?

Pactos. Acho que é isso. Não de sangue nem de nada que se possa ver e tocar. É um pacto silencioso que tem a força de manter as coisas enraizadas, um pacto de eternidade, mesmo que o destino um dia venha a dividir o caminho dos dois.

Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que sugere caminhos para melhorar, que coloca-se a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você, caso você esteja delirando. "Não seja tão severa consigo mesma, relaxe um pouco. Vou te trazer um cálice de vinho".



Sentir-se amado é ver que ela lembra de coisas que você contou dois anos atrás, é vê-la tentar reconciliar você com seu pai, é ver como ela fica triste quando você está triste e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d´água. "Lembra que quando eu passei por isso você disse que eu estava dramatizando? Então, chegou sua vez de simplificar as coisas. Vem aqui, tira este sapato."

Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão. Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente bem-vindo, que se sente inteiro. Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que não existe assunto proibido, que tudo pode ser dito e compreendido. Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo. Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta.

Agora sente-se e escute: eu te amo não diz tudo!!

Por: Martha Medeiros

Sexta-feira

Acontece...


Estala coração de vidro pintado

Por Fernanda Young

Enquanto ela se arruma, o mundo para. O mundo dela, onde só existe o homem que aguarda. Nessa casa sem vínculos, vazio perfeito para encontros clandestinos. Ela tenta fazer daquele quase nada, algo acolhedor. Quer oferecer, alimentar, prover o aconchego que crê que ele mereça. Porque ele é o seu homem. Só seu, durante o tempo em que estiver naquela casa. Lar sem lembranças nem porta-retratos. Ilusão que ela finge não notar, e durará apenas o tempo-livre daquele que espera. Já que ele não é dela e ela não é ele, embora se prepare como se fosse. 
Quer que o vazio esteja lindo, sem saber que lindo seria vê-la assim, acreditando num amor-para-sempre, que termina antes do anoitecer. Não é ingênua ou cínica, é uma mulher e gosta desse jogo, mesmo sabendo que, nele, nunca há vencedoras. Perdedora ou perdida, sente-se excitada. Quase aborrecida por ele estar atrasado. Lembra, porém, de mais alguns detalhes que faltam no paraíso que quer ofertar.
Circula pela casa, toma um vinho, escreve um poema. Vai tentar convencê-lo de quanto ela é perfeita. Ela escreve versos. Ela é livre, mas sabe cozinhar. Escuta um barulho e seu corpo treme inteiro, ainda não é ele. Tenta ficar calma, mas seu coração, agora não bate, estala, como um delicado cristal que, num brinde, trinca. Serve-se mais uma taça de vinho. Sente uma certa vontade de chorar. Tenta se distrair. Pode brincar um pouco enquanto ele não chega? Decide que sim, imaginando tudo que gostaria de fazer com ele. Algumas que nunca fez, inclusive. Mas ele demora demais e ela prefere não mexer onde não deve. 
O primeiro prazer daquela tarde deverá ser com ele, por ele. Mesmo reconhecendo que, no quarto escuro de sua mente, faça o que quiser, com quem quiser. Ele não precisa saber disso. Nenhum homem precisa saber que é na imaginação que a mulher esconde o tal ponto G. Ri. Vê a hora, começa a ficar realmente irritada. Mais uma taça de vinho e o seu coração de vidro estalará mais forte, talvez forte demais. Tornando-a mais intensa em sua poesia e menos preocupada com a refeição que esfria. 
Que casa é essa, afinal? Decide macular o branco daquele local asséptico. O mundo, afinal, não é apenas o local que seu homem habita, homem que nem é tão seu. E tudo fica melhor quando está bagunçado. Então, desarruma tudo.

Terça-feira

Não mesmo...

”Eu sou αquele que tentou te esquecer, mαs α cαdα instαnte dαriα α vidα prα te ver. Aquele que te αmou com sinceridαde, que ontem sorriα de αlegriα e hoje chorα de sαudαdes...
Não quero servir de curativo para cicatrizar amores passados, não quero ser apenas uma afim de tampar buracos e feridas que foram deixadas abertas, quero preencher o lugar que é meu por direito e não ficar lutando e me ferindo por um espaço que ainda está sendo ocupado por outro alguém...Para que no fim essa pessoa se recupere e me deixe para trás, ferido e sangrando a procura de alguém que possa me curar..."



Outra vida - Armandinho

Talvez não seja nessa vida ainda
Mas você ainda vai ser a minha vida
Então a gente vai fugir pro mar
Eu vou pedir pra namorar,
Você vai me dizer que vai pensar,
Mas no fim, vai deixar
Talvez não seja nessa vida ainda
Mas você ainda vai ser a minha vida
Sem ter mais mentiras pra viver
Sem amor antigo pra esquecer
Sem os teus amigos pra esconder
Pode crer, que tudo vai dar certo
Uebaruê iô,
Sou Pescador, sonhador
Vou dizer pra Deus nosso senhor
Que tu és o amor da minha vida
Pois não dá pra viver nessa vida morrendo de amor
Talvez não seja nessa vida ainda
Mas você ainda vai ser a minha vida
E uma abelhinha vai fazer o mel
Estrela Dalva vai cruzar no céu
E o vento certo vai soprar do mar
Pode crer, que tudo vai dar certo
Uebaruê iô,
Sou Pescador, sonhador
Vou dizer pra Deus nosso senhor
Que tu és o amor da minha vida
Pois não dá pra viver nessa vida morrendo de amor
Uebaruê iô,
Sou Pescador, sonhador
Vou dizer pra Deus nosso senhor
Que tu és o amor da minha vida
Pois não dá pra viver nessa vida morrendo de amor
Você acredita em uma outra vida, só nós dois?
Pode crer, que tudo vai dar certo...